A Vigília Involuntária: Quando a Insônia Encontra a Alma
O primeiro passo da jornada de Laura contra o peso da madrugada.
Chegar aos quarenta anos muitas vezes nos coloca diante de um espelho que não pedimos para olhar. O corpo pede trégua, mas a mente instaura um tribunal silencioso onde somos, ao mesmo tempo, os réus e os juízes de nossa própria trajetória. Quando a luz se apaga, os problemas ganham proporções que a luz do dia costuma esconder, e o sono torna-se um visitante que parece ter errado o endereço.
Nesta primeira parte da nossa jornada poético-musical “O Dilema de Laura”, nós damos voz àquela ansiedade crua que nos acorda às três da manhã. Não oferecemos respostas fáceis logo no primeiro acorde, porque a dor precisa ser reconhecida antes de ser curada.
Dê o play no vídeo abaixo. Este é o seu refúgio estético e meditativo para o cultivo da quietude. Respire fundo, reconheça suas vigílias involuntárias e permita que a poesia encontre o seu cansaço.
Canção Poética: Versão em Português
Versão em Inglês
A VIGÍLIA INVOLUNTÁRIA
O lençol pesa como chumbo.
A noite avança. E eu não vou com ela.
O relógio não marca as horas. Ele marca o que me falta.
Tenho quarenta anos.
E a vida parece um copo de vidro na beirada da mesa.
Prestes a cair.
Eu deito. O corpo pede trégua. Mas a mente não perdoa.
O sono demora.
O sono é um visitante que errou o endereço.
Eu luto contra vozes que não emitem som.
Meus próprios pensamentos. Meus próprios tribunais.
Onde eu sou a ré. E também a juíza.
Meus relacionamentos parecem fios soltos.
Minha saúde, um chão de madeira que range a cada passo.
Tento organizar a dor. Enumerar as falhas.
Mas a dor não é metódica. Ela apenas ocupa o espaço.
A janela está escura. A rua está quieta.
Só há barulho aqui dentro.
O sono demora.
O sono é um visitante que errou o endereço.
Eu luto contra vozes que não emitem som.
Meus próprios pensamentos. Meus próprios tribunais.
Onde eu sou a ré. E também a juíza.
Respiro fundo. O ar parece raspar na garganta.
Procuro uma resposta na textura do teto.
Mas o teto é mudo.
A escuridão não tem conselhos para dar.
Eu continuo acordada.
Esperando um cansaço que vença a mente.
Mas o que cresce não é o cansaço.
É a vigília. A longa vigília de quem confia apenas em si mesma. 



